Museologia e Patrimônio




APRESENTAÇÃO


É com grande satisfação que apresentamos o primeiro número de Museologia e Patrimônio de 2017, que traz interessantes contribuições, contando com textos nas seções de Artigos, Relatos de Experiências e Resumos de teses e dissertações, perfazendo um conjunto interessante e diversificado de temas.

Na seção Artigos , Lilian Rodrigues de Oliveira Rosa e João Luiz Passador abrem a revista apresentando uma abordagem da implantação do planejamento estratégico por resultados no campo da preservação do patrimônio cultural brasileiro. O texto se volta para interpretar e explicar os esforços de aperfeiçoamento, planejamento e gestão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por meio da análise dos relatórios de gestão publicados entre 2006 e 2014. Os autores verificaram que em quase oito décadas de existência, o Iphan caracterizou-se por ser instituição verticalizada, com cadeia hierárquica rígida, marcada pelo gigantismo, centralização e morosidade. Para melhorar essa realidade, o Iphan reelaborou o seu planejamento, tornando-se uma organização orientada para a estratégia. Contudo, o seu uso como meio para diminuir o risco de descontinuidade das políticas de patrimônio, ainda deve ser avaliado nos próximos anos. Em seguida, Tania Pereira Dominici e Marcio Ferreira Rangel discutem um tema interessante, relacionando o patrimônio com a luz das estrelas. Segundo os autores, ainda que o céu noturno não esteja por si só formalmente reconhecido em diversas instâncias oficiais enquanto patrimônio, ele já deveria estar sendo resguardado por fazer parte de sítios e saberes registrados, tombados ou candidatos a procedimentos de conservação e proteção em âmbito internacional ou nacional. Nesse contexto, ressaltam a pertinência de procurar proteger dois locais no território brasileiro potencializados pela possibilidade da observação do céu noturno: o Saco do Céu (Ilha Grande, RJ) e o Observatório do Pico dos Dias (Brazópolis, MG). Finalizam alertando que a humanidade está recusando a existência da noite, sem levar em consideração as consequências. Bruno Brulon Soares discute, a seguir, a aplicação do conceito de "paisagem cultural" a contextos sociais contemporâneos. Defendendo a descolonização da musealização e da paisagem como um exercício reflexivo necessário para a Museologia do presente, o autor identifica desafios centrais para os museus e seus agentes em que se destaca uma nova responsabilidade ética: a de entender as paisagens a partir do olhar de seus habitantes nos acirrados processos de negociação que levam à musealização. No texto seguinte, Raquel A. L. S. Venera apresenta resultados de projeto de pesquisa em desenvolvimento que registra e organiza em rede as histórias de vida de pacientes acometidos por uma doença rara, neurológica crônica, conhecida como esclerose múltipla. O acervo produzido no projeto será acolhido pelo Museu da Pessoa, São Paulo, e fará parte da rede dos 17 mil depoimentos em áudio, vídeo e textos disponibilizados em rede. A partir de ferramentas teóricas no campo da Memória, História e Patrimônio Cultural a autora sustenta, ao mesmo tempo em que problematiza, o argumento da centralidade e valorização das histórias de vidas de pessoas comuns como Patrimônio Cultural. Viviane Trindade Borges trata em seu texto de tema delicado relacionado ao lugar de memória criado nas dependências de uma instituição de internamento psiquiátrico. Trata-se do Museu da Loucura, que funciona junto ao antigo Hospital Colônia de Barbacena (MG). As denúncias a respeito das condições degradantes em que viviam os internos do Hospital ganharam notoriedade no final da década de 1970 e marcam o início das discussões a respeito da Reforma Psiquiátrica no Brasil. O texto levanta questões ligadas à saúde pública e ao patrimônio cultural na atualidade, no intuito de entender as condições sociais e políticas que possibilitaram a criação de um espaço museológico dentro de um dos maiores hospitais psiquiátricos do país. A criação do Museu e a exibição de peças do cotidiano psiquiátrico evidencia uma nova sensibilidade em relação à loucura. Segundo a autora, esses objetos não servem mais para agredir, prender, punir, uniformizar, ou legitimar um diagnóstico, não atendem mais às suas funções originais, passaram a ser valorados como vestígios de um passado doloroso. Em seguida, Daniela Carvalho Sophia apresenta um estudo sobre o perfil do acervo do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB). Por meio de pesquisa bibliográfica e documental, o texto examina suas principais características e a evolução de alguns indicadores utilizados. O crescente uso desse acervo pela comunidade acadêmica é um indicador que permite avaliar a expressividade do Arquivo-Museuem em relação às atividades levadas a cabo pela FCRB. Contudo, percebe-se que, a despeito de sua relevância como instituição de memória, faz-se necessário incentivar iniciativas que promovam a divulgação permanente de seus acervos constituídos, como a realização de exposições, de projetos educativos em parceria com escolas e universidades, dentre outras importantes ações na área de educação e comunicação. Janaina Silva Xavier e Marta da Silva Constantino apresentam uma análise do patrimônio ferroviário no estado de São Paulo, em decorrência dos desdobramentos da Lei Federal nº 11.483/2007, que torna obrigatório a preservação destes acervos. Para tanto, pesquisaram a história da ferrovia e, mais especificamente, a da Estação de Mogi Mirim. Apesar de algumas descaracterizações na arquitetura, sofridas ao longo dos anos, seu reuso proporciona áreas de desenvolvimento social e cultural para a população. O local se apresenta em bom estado de conservação e está sendo preservado. Contudo, trata-se da criação de um espaço nas dependências da estação, para que fosse mantida uma pequena exposição com painéis, fotografias e objetos que conservassem a memória da ferrovia em Mogi Mirim, já que esta teve grande relevância para o crescimento e o desenvolvimento da cidade. Por outro lado, não se pode considerar a iniciativa como preservação do patrimônio ferroviário, na visão contemporânea. Fechando essa seção, Diego Lemos Ribeiro, Davi Kiermes Tavares e José Paulo Siefert Brahm refletem e discutem acerca da possibilidade dos cemitérios serem considerados museus ou de terem a potencialidade para tal. Os autores procuraram estabelecer relações entre o espaço cemiterial e o espaço museológico, demonstrando como e em que poderiam se correlacionar. Concluem que, para além das funções científicas, didáticas e pedagógicas e de sua importância no campo do turismo cultural, o cemitério musealizado poderá adquirir novo estatuto, tornando-se um marco patrimonial - elemento referencial de cultura para a comunidade em que se integra, revelando-se à população um espaço de reconhecido valor cultural.

Na seção Relatos de Experiências, apresentamos o texto de Regina de Sa, no qual a autora denuncia uma situação de abandono de importantes vestígios materiais, presentes no Museu Técnico Científico do Instituto Oscar Freire, onde se encontra um dos mais importantes acervos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Fechado desde setembro de 2015, a instituição enfrentava problemas de organização e tratamento museológico, apesar de possuir expressiva e histórica coleção documental e iconográfica ligada à medicina legal. Segundo a autora, no estado que registra o maior número de museus da região Sudeste e do País, totalizando 517 instituições, segundo o Cadastro Nacional de Museus, esse patrimônio cultural se mostra cada vez mais ameaçado. Em seguida, Átila Bezerra Tolentino analisa o processo de construção de memória e identidade do Vale do Gramame, zona rural de João Pessoa, representado na narrativa expositiva do Museu Comunitário Vivo Olho do Tempo. Essa narrativa parte da premissa de que o Vale do Gramame é apresentado pelo olhar de moradores locais e não por um olhar externo. Mas esse olhar interno não significa a inexistência de conflitos e lacunas na conformação de uma memória coletiva do Vale do Gramame. É sintomática a ausência de referências às manifestações culturais de raízes africanas na narrativa expositiva e a supremacia da vertente católica, principalmente considerando a existência de uma comunidade quilombola entre os grupos representados. De todo modo, as lacunas e conflitos existentes na narrativa do Museu não invalidam esse olhar interno e fazem parte dos processos de construções de memórias coletivas e da reconstrução, no momento presente, do passado.

Na seção Resumos, encontram-se resumos e abstracts de dissertações de mestrado e teses de doutorado defendidas no Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio em 2015 e 2016: dissertações - Glória Gelmini de Castro, Karina Muniz Viana, Maria Teresa da Silveira, Ranielle Menezes Figueiredo, Raquel Villagrán Reimão Mello Seoane, Rosa Maria Gonçalves, Vânia Oliveira Ventura; teses - Aline Carmes Krüger, Ana Fátima Berquó Carneiro Ferreira, Flávia Klausing Gervásio, Margarete Zacarias Tostes de Almeida, Telma Lasmar Gonçalves, Vânia Maria Siqueira Alves; além das dissertações de mestrado, ambas defendidas em 2015, de Olivia Silva Nery no Mestrado de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e de Pedro Augusto Vieira Santos no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo; e, finalmente, a tese de doutorado de Denis Pereira Tavares, defendida em 2016, no Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Desejamos a todos uma leitura prazerosa e academicamente proveitosa.

Marcus Granato e Diana Farjalla Correia Lima
Editores científicos

FOREWORD


It is with great pleasure that we introduce the first issue of Museologia e Patrimônio in 2017, which contains some interesting contributions, including articles, experience reports and abstracts of theses and dissertations, covering a diverse and representative set of topics.

The first offering in the Articles section is Lilian Rodrigues de Oliveira Rosa and João Luiz Passador, who present a results-driven strategic planning initiative in the field of Brazilian cultural heritage preservation. In the text, they seek to interpret and explain the improvements, plans and managerial changes made by Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), the Brazilian heritage protection agency, by analysing the management reports published between 2006 and 2014. They found that in its almost eight decades of existence, IPHAN has been marked by a rigid hierarchy, centralised structure and slowness in responding to change. To improve this reality, IPHAN has adapted its planning process to make it more strategy-oriented. However, its success in reducing the risk of discontinuity in heritage policies will still have to be assessed in coming years. In the next article, Tania Pereira Dominici and Marcio Ferreira Rangel discuss an interesting topic, relating heritage to the light of the stars. They argue that while the night sky is not of itself formally recognised as heritage by official entities, it merits being safeguarded as it is an integral part of knowledge and sites that are recorded or listed or could be the target of conservation or protection measures nationally or internationally. In this respect, they stress the importance of protecting two sites in Brazil that have everything to gain from the possibility of observing the night sky: Saco do Céu (Ilha Grande, Rio de Janeiro state) and Pico dos Dias Observatory (Brazópolis, Minas Gerais state). They end by warning that humankind is turning its back on the night without considering the consequences of this attitude. In the next paper, Bruno Brulon Soares discusses the application of the concept of “cultural landscape” to contemporary social settings. Defending the decolonialization of musealization and the landscape as an essential exercise of reflection in present-day museology, he identifies some key challenges facing museums and their agents, in which a new ethical responsibility stands out: that of understanding landscapes from the perspective of their inhabitants in the context of the fraught negotiation processes that precede musealization. In the following text, Raquel A. L. S. Venera presents some findings of an ongoing research project that is recording and organizing the life stories of patients suffering from multiple sclerosis, a rare, chronic neurological disease, into a network. The archive formed during the project will be kept at Museu da Pessoa (Museum of the Person), São Paulo, and will make up part of the 17,000 audio, video and text statements in the network. Drawing on theoretical concepts from the fields of memory, history and cultural heritage, the author simultaneously upholds and problematizes the case for the centrality and importance of the life stories of normal people as cultural heritage. Meanwhile, in her text Viviane Trindade Borges discusses the delicate issue that is the place of memory created in the premises of a former psychiatric institution. The case in question is Museu da Loucura (Museum of Madness), run in the former Hospital Colônia de Barbacena, a mental asylum in the state of Minas Gerais. Outcries about the inhumane conditions in which the patients were kept gave the hospital a bad name in the 1970s and spurred discussions about psychiatric reform in Brazil. The text raises questions about public health and cultural heritage in the present day in order to understand the social and political conditions that enabled the creation of a museum space inside one of the country’s biggest psychiatric hospitals. The existence of the museum, which displays objects used regularly in the asylum, bears witness to a new sensibility towards mental illness. According to the author, these objects no longer serve to assault, restrain, punish, regulate or legitimise a diagnosis; they have shed their original functions to gain new value as vestiges of a painful past. In the next text, Daniela Carvalho Sophia presents a study of the profile of the Museum-Archive of Brazilian Literature at Fundação Casa de Rui Barbosa. Researching the literary and documental archives, the author examines the main features of the collection and the development of some of the indicators used. The increasing use of this archive by the academic community indicates the potential importance of the archive-museum in the core activities of Fundação Casa de Rui Barbosa. However, despite its importance as an institution of memory, more effort should be made to divulge its collections on an ongoing basis through exhibitions, education projects with schools and universities, and other educational and communication initiatives. In their article, Janaina Silva Xavier and Marta da Silva Constantino present an analysis of the rail heritage of the state of São Paulo since the passing of Federal Law 11.483/2007, which instated the mandatory preservation of such heritage. They studied the history of the railway and Mogi Mirim station in particular. Despite some alterations to its architectural features over the years, its new use has provided areas of social and cultural development for the local population. The site is in a good state of conservation and is being preserved. However, the initiative is essentially for a small exhibition space inside the station’s premises made up of panels, photographs and objects to preserve the memory of the railway in view of its importance to the growth and development of Mogi Mirim. Even so, the initiative cannot be viewed as a measure to preserve rail heritage, taken from a contemporary perspective. Finally, the last contribution to this section is by Diego Lemos Ribeiro, Davi Kiermes Tavares and José Paulo Siefert Brahm, who reflect on and discuss the possibility of cemeteries being considered museums or having the potential for this. They draw links between the cemetery space and the museum space, demonstrating how and what parallels can be drawn between them. They conclude that above and beyond their scientific and educational functions and their importance in the field of cultural tourism, musealized cemeteries may acquire a new status in their own right, becoming heritage landmarks – cultural references for their host communities, revealing spaces of acknowledged cultural value to the people.

In the Experience Reports section, we present a text by Regina de Sa that speaks out about the neglect of some important material remains at the Science and Technology Museum (Museu Técnico Científico) of Instituto Oscar Freire, which houses one of the most important collections of the University of São Paulo’s Faculty of Medicine. Closed since September 2015, the museum was having trouble organising and dispensing due museological care to its collection, despite the size and range of its historical iconographic and documental archive relating to forensic medicine. The author explains that in São Paulo, the state that has most museums in Brazil – a total of 517, according to the National Museum Register – this heritage is under increasing threat. In the other experience report, Átila Bezerra Tolentino analyses the process of memory and identity construction in Vale do Gramame, a rural area of the city of João Pessoa, represented in the exhibition narrative of the community museum, Museu Comunitário Vivo Olho do Tempo. The narrative is built on the understanding that Vale do Gramame should be represented from its local residents’ perspective, not by some outside view. But this view from the inside does not mean there are no conflicts or gaps when its collective memory is built. There is, for instance, a marked absence of any references to African-based cultural manifestations in the exhibition narrative, despite the existence of a maroon community amongst the groups represented, while the catholic narrative takes precedence. Nonetheless, these gaps and conflicts do not invalidate the internal perspective of the narrative, constituting part of the process of building collective memory and of reconstructing the past in the present time.

In the Abstracts section we have abstracts of master’s and doctoral dissertations and theses from the Postgraduate Programme in Museology and Heritage (UNIRIO/MAST) in 2015 and 2016, and from other Postgraduate Programmes . The dissertations are by Glória Gelmini de Castro, Karina Muniz Viana, Maria Teresa da Silveira, Ranielle Menezes Figueiredo, Raquel Villagrán Reimão Mello Seoane, Rosa Maria Gonçalves and Vânia Oliveira Ventura; and the theses are by Aline Carmes Krüger, Ana Fátima Berquó Carneiro Ferreira, Flávia Klausing Gervásio, Margarete Zacarias Tostes de Almeida, Telma Lasmar Gonçalves and Vânia Maria Siqueira Alves. There are also the abstracts of two dissertations, both from 2015: one by Olivia Silva Nery, from the Postgraduate Programme in Social Memory and Cultural Heritage at the Federal University of Pelotas, and the other by Pedro Augusto Vieira Santos from the Postgraduate Programme in the History and Fundamentals of Architecture and Urban Planning at the University of São Paulo. Finally, there is also the abstract of a doctoral thesis by Denis Pereira Tavares, from 2016, as part of the Postgraduate Programme in History at the Federal University of Minas Gerais.

We wish you a pleasant and academically rewarding read.

Marcus Granato e Diana Farjalla Correia Lima
Scientific editors

PRESENTACIÓN


Es con enorme satisfacción que presentamos el primer número de la revista Museologia e Patrimônio, de 2017, que trae interesantes aportes y textos en las secciones de Artículos, Relatos de Experiencias y Resúmenes de tesis y disertaciones, que forman un conjunto interesante y diversificado de temas.

En la sección Artículos, Lilian Rodrigues de Oliveira Rosa y João Luiz Passador abren la revista presentando un enfoque de la planificación estratégica por resultados implantada en el área de la preservación del patrimonio cultural brasileño. Mediante el análisis de los informes de gestión publicados entre 2006 y 2014, el texto interpreta y explica los esfuerzos de perfeccionamiento, planificación y gestión del Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Los autores constataron que en casi ocho décadas de existencia, el Iphan se caracterizó por ser una institución verticalizada, con una cadena jerárquica rígida, marcada por el gigantismo, la centralización y la morosidad. Para mejorar esta realidad, el Iphan reelaboró su planificación, tornándose una organización orientada hacia la estrategia. Sin embargo, el uso de esta nueva planificación, como un medio para disminuir el riesgo de discontinuar las políticas de patrimonio, aún deberá evaluarse en los próximos años. A seguir, Tania Pereira Dominici y Marcio Ferreira Rangel discuten un tema interesante, relacionando el patrimonio con la luz de las estrellas. Según los autores, aunque el cielo nocturno no esté por sí solo formalmente reconocido en diversos sectores oficiales a título de patrimonio, él ya debería ser resguardado por formar parte de los sitios y saberes registrados, declarados patrimonio o candidatos a procedimientos de conservación y protección en el ámbito internacional o nacional. En este contexto, cabe resaltar la pertinencia de protegerse dos lugares en el territorio brasileño potencializados por la posibilidad de observación del cielo nocturno: uno es la ensenada Saco do Céu (ubicada en Ilha Grande, estado de Río de Janeiro) y el otro, el Observatorio del Pico dos Dias (en Brazópolis, municipio del estado de Minas Gerais). Concluyen alertando que la humanidad está rechazando la existencia de la noche, sin llevar en consideración las consecuencias. Bruno Brulon Soares discute, a seguir, la aplicación del concepto de "paisaje cultural" a contextos sociales contemporáneos. Defendiendo la descolonización de la musealización y del paisaje como un ejercicio reflexivo necesario para la Museología del presente, el autor identifica desafíos centrales para los museos y sus agentes en que se destaca una nueva responsabilidad ética: la de entender los paisajes a partir de la mirada de sus habitantes en los reñidos procesos de negociación que llevan a la musealización. En el texto siguiente, Raquel A. L. S. Venera presenta resultados de un proyecto de investigación en desarrollo que registra y organiza en red las historias de vida de pacientes que sufren una enfermedad neurológica crónica, considerada rara, conocida como esclerosis múltiple. El acervo producido en el proyecto se destinará al Museu da Pessoa (Museo de la Persona), situado en la ciudad de São Paulo, y formará parte de la red de las 17 mil declaraciones en audio, vídeo y textos colocados a disposición en la red. A partir de las herramientas teóricas en el campo de la Memoria, Historia y Patrimonio Cultural la autora sostiene, al mismo tiempo en que problematiza, el argumento de la centralidad y valoración de las historias de vidas de personas comunes como Patrimonio Cultural. Viviane Trindade Borges trata en su texto de un tema delicado relacionado con el lugar de memoria creado en las dependencias de una institución de internamiento psiquiátrico. Se trata del Museu da Loucura (Museo de la Locura), que funciona junto al antiguo Hospital Colonia de Barbacena, en el estado de Minas Gerais. Las denuncias a respecto de las condiciones degradantes en que vivían los pacientes internados en el Hospital ganaron notoriedad al final de la década de 1970 y marcan el inicio de las discusiones a respecto de la Reforma Psiquiátrica en Brasil. El texto levanta cuestiones asociadas a la salud pública y al patrimonio cultural en la actualidad, con el objetivo de entender las condiciones sociales y políticas que posibilitaron la creación de un espacio museológico dentro de uno de los mayores hospitales psiquiátricos del país. La creación del Museo y la exhibición de piezas del cotidiano psiquiátrico evidencian una nueva sensibilidad con relación a la locura. Según la autora, estos objetos no sirven más para agredir, sujetar, castigar, uniformizar o legitimar un diagnóstico, no sirven más a sus funciones originales y sí a ser valorados como vestigios de un pasado doloroso. En seguida, Daniela Carvalho Sophia presenta un estudio sobre el perfil del acervo del Archivo-Museo de Literatura Brasileña de la Fundação Casa de Rui Barbosa (Fundación Casa de Rui Barbosa - FCRB). Mediante investigación bibliográfica y documental, el texto examina sus principales características y la evolución de algunos indicadores utilizados. El uso creciente de este acervo por la comunidad académica es un indicador que permite evaluar la expresividad del Archivo-Museo con relación a las actividades llevadas a cabo por la FCRB. Sin embargo, se observa que –pese a su relevancia como institución de memoria– se necesita fomentar las iniciativas que promuevan la divulgación permanente de sus acervos constituidos, tales como la realización de exposiciones, de proyectos educativos en colaboración con escuelas y universidades, entre otras acciones importantes en el área de educación y comunicación. Janaina Silva Xavier y Marta da Silva Constantino presentan un análisis del patrimonio ferroviario en el estado de São Paulo, como resultado de los efectos de la Ley Federal nº 11.483/2007, que establece como obligatoria la preservación de estos acervos. Para ese fin, investigaron la historia del ferrocarril y, más específicamente, la historia de la Estación de Mogi Mirim. Pese a algunas descaracterizaciones en la arquitectura, sufridas a lo largo del tiempo, su reúso proporciona áreas de desarrollo social y cultural a la población. El lugar se presenta en buen estado de conservación y preservación. Sin embargo, se trata de la creación de un espacio en las dependencias de la estación, donde se pudiese mantener una pequeña exposición con paneles, fotografías y objetos que conservasen la memoria de la vía férrea en Mogi Mirim, ya que esta tuvo una gran relevancia para el crecimiento y el desarrollo de la ciudad. Por otro lado, no se puede considerar la iniciativa como preservación del patrimonio ferroviario, en la visión contemporánea. Cerrando esta sección, Diego Lemos Ribeiro, Davi Kiermes Tavares y José Paulo Siefert Brahm reflexionan y discuten acerca de la posibilidad de considerarse los cementerios como museos o con la potencialidad para ello. Los autores buscaron establecer relaciones entre el espacio cementerial y el espacio museológico, demostrando cómo y en qué se podrían correlacionar. Concluyen que, más allá de las funciones científicas, didácticas y pedagógicas, y de su importancia en el campo del turismo cultural, el cementerio musealizado podrá adquirir un nuevo estatuto, volviéndose un hito patrimonial –elemento referencial de cultura para la comunidad en que se integra– revelándose a la población un espacio de reconocido valor cultural.

En la sección Relatos de Experiencia, se presenta el texto de Regina de Sá, en el cual la autora denuncia una situación de abandono de importantes vestigios materiales, presentes en el Museo Técnico Científico del Instituto Oscar Freire, donde se encuentra uno de los más importantes acervos de la Facultad de Medicina de la Universidad de São Paulo. Cerrado desde septiembre del 2015, la institución enfrentaba problemas de organización y tratamiento museológico, a pesar de poseer una expresiva e histórica colección documental e iconográfica asociada a la medicina forense. De acuerdo con la autora, en el estado que registra el mayor número de museos de la región Sudeste y del país –totalizando 517 instituciones, de acuerdo con el Registro Nacional de Museos– este patrimonio cultural se muestra cada vez más amenazado. En seguida, Átila Bezerra Tolentino analiza el proceso de construcción de memoria e identidad del Valle de Gramame, zona rural de João Pessoa, capital del estado de Paraíba, representado en la exposición narrativa del Museo Comunitario Vivo Olho do Tempo. Dicha exposición parte de la premisa de que el Valle de Gramame se presenta por la mirada de los habitantes locales y no por una mirada externa. Pero esta mirada interna no significa la inexistencia de conflictos y brechas en la conformación de una memoria colectiva del Valle de Gramame. Es sintomática la ausencia de referencias a las manifestaciones culturales de raíces africanas en la exposición narrativa y la supremacía de la vertiente católica, principalmente considerando la existencia de una comunidad palenquera entre los grupos representados. De todo modo, las brechas y conflictos existentes en la narración del Museo no invalidan esta mirada interna y forman parte de los procesos de construcción de memorias colectivas y de la reconstrucción, en el momento presente, del pasado.

En la sección Resúmenes, se encuentran los resúmenes y abstracts de disertaciones de maestría y tesis de doctorado defendidas en el Programa de Posgrado en Museología y Patrimonio en 2015 y 2016: disertaciones –Glória Gelmini de Castro, Karina Muniz Viana, Maria Teresa da Silveira, Ranielle Menezes Figueiredo, Raquel Villagrán Reimão Mello Seoane, Rosa Maria Gonçalves, Vânia Oliveira Ventura; teses – Aline Carmes Krüger, Ana Fátima Berquó Carneiro Ferreira, Flávia Klausing Gervásio, Margarete Zacarias Tostes de Almeida, Telma Lasmar Gonçalves, Vânia Maria Siqueira Alves; además de las disertaciones de maestría, ambas defendidas en el 2015, de Olivia Silva Nery en la Maestría de Posgrado en Memoria Social y Patrimonio Cultural de la Universidad Federal de Pelotas (UFPel), y de Pedro Augusto Vieira Santos en el Programa de Posgrado de la Facultad de Arquitectura de la Universidad de São Paulo, en Historia y Fundamentos de la Arquitectura y del Urbanismo; y, finalmente, la tesis de doctorado de Denis Pereira Tavares, defendida en el 2016, en el Programa de Posgrado en Historia, de la Universidad Federal de Minas Gerais.

Deseamos a todos una lectura placentera y académicamente provechosa.

Marcus Granato e Diana Farjalla Correia Lima
Editores científicos